Apólida, o verdadeiro mistério de Boytac reside, portanto, nas suas origens, pois não se sabe nem onde nem quando nasceu. De facto, especula-se muito sobre a sua nacionalidade, ao ponto de Boytac se ter tornado num verdadeiro iniciado cosmopolita, oriundo das mais diversas partes do globo, de Itália a França, de Portugal a África (veja-se Páginas Secretas da História de Portugal de Rainer Daehnhardt, vol.II, Edições Nova Acrópole, 1ª edição, Lisboa, Maio de 1994, «Contactos Luso-Coptas», pág. 44), de qualquer uma das partes do sul Europeu, etc.
« Diogo de Boytac (c.1460-1528), cujo nome aparece sob as formas de Boytack, Boutaca, e até Potassi… Ignora-se a sua nacionalidade, havendo quem lha dê a alemã, francesa, italiana ou portuguesa...» (O Mosteiro dos Jerónimos, 1. Descrição e Evocação por José da Felicidade Alves, Livros Horizonte, 1989, Colecção Cidade de Lisboa, N.º 7, « O Mosteiro de Santa Maria de Belém no tempo do rei D.Manuel, 1496-1521 », pág. 20).
Através de Frei Jeronymo de Belém, na sua Chronica serafica, 2ª parte, livro 10º, 1º capítulo de 1753, pág.576, que foi quem noticiou que o rei D.João II fez chamar Mestre Boytac de Itália, a pedido de Justa Rodrigues Pereira, pela grande fama que dele corria, para que então obrasse em Portugal na construção do Convento de Jesus, em Setúbal, o conde Athanase Nalęcz Raczynski (1788-1874), autor do Dictionnaire historique-artistique du Portugal pour faire suite à l’ouvrage ayant pour titre: Les Arts en Portugal, Jules Renouard, Paris 1847, aventou, pois, a hipótese deste arquitecto (maître Boytaca ou Boytaqua) ser, pois, originário de Portugal, encontrando-se somente a estudar em Itália para se aperfeiçoar na sua arte…
Pela nossa parte, não nos devemos esquecer que o rei D.João II, no trono desde 29 de Agosto de 1481 e grande admirador da Florença dos Médicis, já havia também enviado o insigne arquitecto (covilhanense?) Mateus Fernandes, o futuro sogro de Boytac, para o estrangeiro com o propósito de este ali se aperfeiçoar na sua arte, ao tomar contacto com a arquitectura gótica das grandes catedrais europeias, nomeadamente as da Alemanha e de Itália, conforme o que nos é dito por Pedro José de Figueiredo (1762-1826), no seu Retratos e Elogios dos Varões e Donas que ilustraram a nação portuguesa em virtudes, letras, armas e artes, assim nacionais, como estranhos, tanto antigos, como modernos, offerecidos aos generosos portugueses, Lisboa 1817, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, que se encontra na Biblioteca Pública Municipal do Porto (cota RES-XIX-A-53) …
Boytac e Mateus Fernandes seriam então dois arquitectos portugueses, enviados ao estrangeiro pelo rei D.João II, no decorrer da segunda metade da década de 1480, com o propósito de trazerem para Portugal novas tendências arquitectónicas, para as aplicar depois nas nossas próprias concepções, e foi este impulso artístico do gótico português tardio, dito flamejante (flamboyant), que viria depois a ser apelidado de Estilo Manuelino por Francisco Adolfo de Vernhagen (1816-1878), no seu Notícia Histórica e Descriptiva do Mosteiro de Belém, Lisboa 1842!
Aliás, acredita-se que foi Mestre Boytac quem introduziu nos finais do séc.XV a abóbada de combados em Portugal ao abobadar a cabeceira do Convento de Jesus, o que significa que, com o seu estilo, Boytac é hoje considerado um inovador em relação à arte gótica que por cá se aplicava na época!
Por sua vez, a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, no seu 4º volume, pág.961, refere uma povoação que dá pelo nome de Botaca ou Boutaca, lugar da freguesia de Exaltação da Santa Cruz , concelho da Batalha, da qual se supôs ser originário este arquitecto. Assim, na pág.1009 do mesmo volume da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira lê-se:
« A existência duma povoação na região da Batalha, chamada Boutaca, levou à hipótese de que o arquitecto tomasse o nome da terra de onde possívelmente seria originário. »
Aliás, o livro História da Arte Portuguesa, vol.II, Temas e Debates, Agosto de 1995, direcção de Paulo Pereira, « As grandes edificações (1450-1530): Na grande Estremadura », pág.52, também se refere a uma povoação Boutaca nas vizinhanças da Batalha…
Tentámos então localizar a povoação da Boutaca e procurámos informações junto da Câmara Municipal da Batalha, que de imediato se disponibilizou a contactar o historiador e etnógrafo local, Sr. José Travaços Santos, que muito amavelmente me contactou a 6 de Janeio de 2006 ao escrever-me o seguinte trecho:
« A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, no seu 4º volume, refere uma povoação denominada BOUTACA nos arredores da Batalha. Ora, esta povoação nunca existiu e, se existiu, não se situava no termo da Batalha nem na Alta Estremadura. Não sabemos onde a Enciclopédia foi buscar a informação, mas crê-se que se trata de uma mera suposição sem qualquer fundamento histórico. Não há uma povoação com este nome e, se houve, desapareceram totalmente os seus vestígios, o que é estranho. »
Depois acrescenta :
« O sítio, onde no século XIX, se construiu a Ponte da Boutaca era conhecido "pelo da Boutaca ou Boitaca" por, pelos finais do século XV e princípios do século XVI, o mestre Boytac (nome que foi aportuguesado para Boitaca ou Boutaca, dado tratar-se, segundo se crê, dum estrangeiro do sul da Europa) aí ter tido uma propriedade. »
Porém, na minha humilde opinião, parte desta informação da Enciclopédia é proveniente de duas fontes. A primiera pode ser da magnífica obra de autoria do historiador Sousa Viterbo, Dicionário histórico e documental dos arquitectos, engenheiros e construtores portugueses ou ao serviço de Portugal, vol.1, « 88 - Boytac (Diogo?) », que nos diz:
« Não falta quem opine que elle é portuguez, dada a circumstancia de haver um logar proximo da Batalha, em cujas obras trabalhou, com a designação de Boutaca. Admitida a existencia de tal logar, resta provar se foi elle quem deu o nome ao artista, se foi o artista que deu o nome ao logar »
A outra, talvez seja a obra do Conde de Raczynski, Dictionnaire historique-artistique du Portugal pour faire suite à l’ouvrage ayant pour titre: Les Arts en Portugal, através de João António de Lemos Pereira de Lacerda (1807-1887), 2º visconde de Juromenha, onde se pode ler :
« Une personne native de Leiria et parfaitement au fait des localités qui l’avoisinent, m’a assuré qu’il existe près de Batalha un village ou hameau appelé Boytaca ou Boutaca, situé sur le revers d’une hauteur, aux environs du couvent, et se composant seulement de quelques maisons (cela m’a été confirmé par D.Joseph de Camara, ancien gouverneur civil de Leiria). Si ce hameau existait antérieurment à l’époque de Boytaca, il serait évident que l’architecte aurait pris le nom du dit lieu de sa naissance. »
Enfim, o verdadeiro mistério de Boytac reside, portanto, em não se saber se foi ele quem deu o nome ao lugar ou se foi o lugar que lhe deu o nome. No primeiro caso ficaria provado que ele não era português, o que significa que tinha de ser estrangeiro; no segundo caso ficaria provado que ele era português.