15
Out 11

O lugar conhecido por da Boutaca seria, portanto, a quinta onde o arquitecto Boytac teria residido com a sua mulher e o seus filhos, a oeste da vila da Batalha, junto à ribeira da Calvaria, no outro lado de uma colina, de onde se avista o convento dos Dominicanos ao fundo, também conhecido por Mosteiro de Santa Maria da Vitória, e no local uma ponte assinala ainda hoje a sua localização, a Ponte da Boutaca (monumento nacional desde 1982 de estilo revivalista e traços neo-góticos, recentemente restaurada), com casas de portageiros e que integrava a antiga Estrada Nacional 1 (EN-1) que ligava Lisboa ao Porto (conhecida agora por Estrada da Boutaca, C.P. 2440), foi erguida em 1862 durante o reinado de D.Luis (a julgar pela pala colocada junto à estrada de acesso à ponte, se bem que existam indicações de uma primeira construção de autoria do próprio Boytac) para aproximar a estrada Real da Vila!

 

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Porém, não nos é dada qualquer informação adicional sobre desde quando é a dita quinta passou a pertencer a Mestre Boytac. De facto, desconhece-se a existência de qualquer documento respeitante à aquisição desta propriedade, nem sequer se conhece a data exacta a partir da qual o dito lugar se passou a chamar da Boutaca, se antes ou depois do arquitecto aí residir!

 

Há quem suponha que talvez Boytac residisse na quinta do lugar da Boutaca por ter sido este o lugar onde nasceu, possivelmente a propriedade que em tempos já fora de seus pais e para a qual retornou nos últimos tempos da sua vida!

publicado por fulg às 08:41

14
Out 11

Apólida, o verdadeiro mistério de Boytac reside, portanto, nas suas origens, pois não se sabe nem onde nem quando nasceu. De facto, especula-se muito sobre a sua nacionalidade, ao ponto de Boytac se ter tornado num verdadeiro iniciado cosmopolita, oriundo das mais diversas partes do globo, de Itália a França, de Portugal a África (veja-se Páginas Secretas da História de Portugal de Rainer Daehnhardt, vol.II, Edições Nova Acrópole, 1ª edição, Lisboa, Maio de 1994, «Contactos Luso-Coptas», pág. 44), de qualquer uma das partes do sul Europeu, etc.

 

« Diogo de Boytac (c.1460-1528), cujo nome aparece sob as formas de Boytack, Boutaca, e até Potassi… Ignora-se a sua nacionalidade, havendo quem lha dê a alemã, francesa, italiana ou portuguesa...» (O Mosteiro dos Jerónimos, 1. Descrição e Evocação por José da Felicidade Alves, Livros Horizonte, 1989, Colecção Cidade de Lisboa, N.º 7, « O Mosteiro de Santa Maria de Belém no tempo do rei D.Manuel, 1496-1521 », pág. 20).

 

Através de Frei Jeronymo de Belém, na sua Chronica serafica, 2ª parte, livro 10º, 1º capítulo de 1753, pág.576, que foi quem noticiou que o rei D.João II fez chamar Mestre Boytac de Itália, a pedido de Justa Rodrigues Pereira, pela grande fama que dele corria, para que então obrasse em Portugal na construção do Convento de Jesus, em Setúbal, o conde Athanase Nalęcz Raczynski (1788-1874), autor do Dictionnaire historique-artistique du Portugal pour faire suite à l’ouvrage ayant pour titre: Les Arts en Portugal, Jules Renouard, Paris 1847, aventou, pois, a hipótese deste arquitecto (maître Boytaca ou Boytaqua) ser, pois, originário de Portugal, encontrando-se somente a estudar em Itália para se aperfeiçoar na sua arte…

 

Pela nossa parte, não nos devemos esquecer que o rei D.João II, no trono desde 29 de Agosto de 1481 e grande admirador da Florença dos Médicis, já havia também enviado o insigne arquitecto (covilhanense?) Mateus Fernandes, o futuro sogro de Boytac, para o estrangeiro com o propósito de este ali se aperfeiçoar na sua arte, ao tomar contacto com a arquitectura gótica das grandes catedrais europeias, nomeadamente as da Alemanha e de Itália, conforme o que nos é dito por Pedro José de Figueiredo (1762-1826), no seu Retratos e Elogios dos Varões e Donas que ilustraram a nação portuguesa em virtudes, letras, armas e artes, assim nacionais, como estranhos, tanto antigos, como modernos, offerecidos aos generosos portugueses, Lisboa 1817, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, que se encontra na Biblioteca Pública Municipal do Porto (cota RES-XIX-A-53) …

 

Boytac e Mateus Fernandes seriam então dois arquitectos portugueses, enviados ao estrangeiro pelo rei D.João II, no decorrer da segunda metade da década de 1480, com o propósito de trazerem para Portugal novas tendências arquitectónicas, para as aplicar depois nas nossas próprias concepções, e foi este impulso artístico do gótico português tardio, dito flamejante (flamboyant), que viria depois a ser apelidado de Estilo Manuelino por Francisco Adolfo de Vernhagen (1816-1878), no seu Notícia Histórica e Descriptiva do Mosteiro de Belém, Lisboa 1842!

 

Aliás, acredita-se que foi Mestre Boytac quem introduziu nos finais do séc.XV a abóbada de combados em Portugal ao abobadar a cabeceira do Convento de Jesus, o que significa que, com o seu estilo, Boytac é hoje considerado um inovador em relação à arte gótica que por cá se aplicava na época!

 

Por sua vez, a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, no seu 4º volume, pág.961, refere uma povoação que dá pelo nome de Botaca ou Boutaca, lugar da freguesia de Exaltação da Santa Cruz , concelho da Batalha, da qual se supôs ser originário este arquitecto. Assim, na pág.1009 do mesmo volume da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira lê-se:

 

« A existência duma povoação na região da Batalha, chamada Boutaca, levou à hipótese de que o arquitecto tomasse o nome da terra de onde possívelmente seria originário. »

 

Aliás, o livro História da Arte Portuguesa, vol.II, Temas e Debates, Agosto de 1995, direcção de Paulo Pereira, « As grandes edificações (1450-1530): Na grande Estremadura », pág.52, também se refere a uma povoação Boutaca nas vizinhanças da Batalha…

 

Tentámos então localizar a povoação da Boutaca e procurámos informações junto da Câmara Municipal da Batalha, que de imediato se disponibilizou a contactar o historiador e etnógrafo local, Sr. José Travaços Santos, que muito amavelmente me contactou a 6 de Janeio de 2006 ao escrever-me o seguinte trecho:

 

« A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, no seu 4º volume, refere uma povoação denominada BOUTACA nos arredores da Batalha. Ora,  esta povoação nunca existiu e, se existiu, não se situava no termo da Batalha nem na Alta Estremadura. Não sabemos onde a Enciclopédia foi buscar a informação, mas crê-se que se trata de uma mera suposição sem qualquer fundamento histórico. Não há uma povoação com este nome e, se houve, desapareceram totalmente os seus vestígios, o que é estranho. »

 

Depois acrescenta :

 

« O sítio, onde no século XIX, se construiu a Ponte da Boutaca era conhecido "pelo da Boutaca ou Boitaca" por, pelos finais do século XV e princípios do século XVI, o mestre Boytac (nome que foi aportuguesado para Boitaca ou Boutaca, dado tratar-se, segundo se crê, dum estrangeiro do sul da Europa) aí ter tido uma propriedade. »

 

Porém, na minha humilde opinião, parte desta informação da Enciclopédia é proveniente de duas fontes. A primiera pode ser da magnífica obra de autoria do historiador Sousa Viterbo, Dicionário histórico e documental dos arquitectos, engenheiros e construtores portugueses ou ao serviço de Portugal, vol.1, « 88 - Boytac (Diogo?) », que nos diz:

 

« Não falta quem opine que elle é portuguez, dada a circumstancia de haver um logar proximo da Batalha, em cujas obras trabalhou, com a designação de Boutaca. Admitida a existencia de tal logar, resta provar se foi elle quem deu o nome ao artista, se foi o artista que deu o nome ao logar »

 

A outra, talvez seja a obra do Conde de Raczynski, Dictionnaire historique-artistique du Portugal pour faire suite à l’ouvrage ayant pour titre: Les Arts en Portugal, através de João António de Lemos Pereira de Lacerda (1807-1887), 2º visconde de Juromenha, onde se pode ler :

 

« Une personne native de Leiria et parfaitement au fait des localités qui l’avoisinent, m’a assuré qu’il existe près de Batalha un village ou hameau appelé Boytaca ou Boutaca, situé sur le revers d’une hauteur, aux environs du couvent, et se composant seulement de quelques maisons (cela m’a été confirmé par D.Joseph de Camara, ancien gouverneur civil de Leiria). Si ce hameau existait antérieurment à l’époque de Boytaca, il serait évident que l’architecte aurait pris le nom du dit lieu de sa naissance. »

 

Enfim, o verdadeiro mistério de Boytac reside, portanto, em não se saber se foi ele quem deu o nome ao lugar ou se foi o lugar que lhe deu o nome. No primeiro caso ficaria provado que ele não era português, o que significa que tinha de ser estrangeiro; no segundo caso ficaria provado que ele era português.

publicado por fulg às 14:01

Outra das questões levantadas por Castro Irmão no seu Archivo Pittoresco é a do busto de Boytac que vamos agora analisar.

 

            

 

Segundo o autor, o busto seria, portanto, este que se vê retratado num medalhão à romana na base do grosso pilar norte do cruzeiro da capela do Mosteiro dos Jerónimos.

 

Outras fontes, porém, confirmam-nos que, afinal, este busto é o do arquitecto João de Castilho ou Juan de Castillo (1470-1553?) e não o de Boytac.

 

Esse foi o motivo que levou a que na Cantábria, Espanha, se fizesse uma lápide comemorativa que foi colocada na galilé da Igreja de S. Pedro Apóstolo, matriz de Castillo Siete Villas, como uma cópia pouco elaborada da figura que se vê neste medalhão do pilar do cruzeiro do Mosteiro dos Jerónimos, acompanhada dos seguintes dizeres :

 

                                  Al insigne arquitecto

                                     Juan de Castillo

                               nazido en Castillo 1470

                              Tomar (Portugal) - 1552

                            I español caballero de Cristo

 

img019

publicado por fulg às 11:53

Correcção img215

 

A sepultura rasa de Mestre Boytac no 1º degrau para quem sobe para a capela-mor da capela do Mosteiro dos Jerónimos.

 

Correcção img217 

 

img014

 

 

img017

 

Este é um assunto que tem de ser devidamente explorado. Quais são, por exemplo, as fontes em que o artigo se baseia ?

 

Seja como for, eu decidi dar aqui o meu contributo no sentido de dar o primeiro passo para futuras investigações em antigos documentos.

 

Na verdade, as ossadas de Boytac também foram transladadas desde a Igreja de Santa Maria-a-Velha e que o túmulo se dizia estar então vazio quando em 1920 as suas pedras serviram de passeio na Batalha. Esse é um facto. Resta agora saber se esta história se confirma ou não.

 

A história torna-se ainda mais complicada, quando se percebe que ele fora primeiramente sepultado no pavimento da porta travêssa e depois transladado para o primeiro degrau que dá subida para a capela-mor, onde ainda hoje deve permanecer...

 

publicado por fulg às 06:34

Decidi ir ainda mais longe nas minhas investigações. Assim, questionei sobre o paradeiro das ossadas de Boytac. O assunto parece um pouco mórbido, mas o que descobri é realmente fantástico.

 

Fiquei a saber que as ossadas que ainda se encontravam na Igreja de Santa Maria-a-Velha, aquando da sua destruição, foram depositadas numa vala comum. No entanto, as ossadas de Boytac já não se encontravam lá. O túmulo estaria vazio... Estranho!

 

Muito curiosamente, Castro Irmão, no seu Archivo Pittoresco, semanario illustrado, vol. IX, anno 9º - 1866, editores proprietários Castro Irmão & Cia. « Algumas notícias àcerca do Mosteiro de Belém », p. 308, diz-nos que as ossadas do arquitecto Boytac foram transladadas para o Mosteiro de Santa Maria de Belém, dito dos Jerónimos:

 

« Na primeira coluna que fica do lado do Evangelho, junto aos degraus que faz subida para o pavimento do cruzeiro, está esculpido, em meio relevo, o busto do architecto Boytaca; e debaixo do primeiro degrau, que dá subida para a capella-môr, jaz o referido architecto, para onde o mandou transladar D.Filipe I de Portugal, no anno de 1582, do pavimento da porta travêssa, sob que estava sepultado aquelle que tinha todas as circumstancias de singular architecto. »

 

Deslocámo-nos então ao Mosteiro dos Jerónimos com o intuito de visitar aquela que seria a última morada do ilustre arquitecto. Infelizmente, observámos que nenhuma inscrição tumular nos assinala o seu sepulcro actual, apenas se via uma cruz assinalada no chão junto às escadas que dão para a capela-mor (hoje completamente tapadas com um enorme palco, sem graça nenhuma... será para esconder algo?).

 

Mas o que é realmente curioso é que a data indicada da entrada das suas ossadas no Mosteiro dos Jerónimos coïncide precisamente com as de D. Sebastião I de Portugal (1554-1578).

 

                  Rei D. Sebastião.jpg

 

De facto, em 1582, Filipe I de Portugal mandou transladar para o Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, um corpo que alegava ser o do rei desaparecido, na esperança de acabar com o Sebastianismo. Esse corpo pode bem ser o de Boytac !!!

 

A ideia de acabar com o Sebastianismo não resultou, pois nem se pôde comprovar se o corpo era realmente o de D. Sebastião...

 

Resta saber o porquê de tantas reservas em abrir o túmulo do rei D. Sebastião e verificar se alguma vez foi realmente depositado lá algum corpo (a dúvida que persiste há mais de 430 anos poderia provavelmente ser resolvida com um simples teste de ADN).

 

Sim. D. Sebastião retornará a Portugal, quando as suas ossadas forem verdadeiramente transladadas para o seu túmulo. Cuidado, esse será um dia de muito nevoeiro...

publicado por fulg às 04:40

O autor de O Monumento da Batalha - Guia do Visitante, « Appendice, Igreja de Santa Maria », p. 48, leu no epitáfio 157? possivelmente porque o algarismo 2 (em forma de Z como no caso do epitáfio de Isabel Henriques) foi considerado um 7.

 

« Sepultura de Mestre Boitac, cavaleiro da casa d'El-Rei, nosso Senhor e Mestre das obras do reino. Faleceu a 6 de Dezembro de 1527. »

 

Mas vejamos, como cheguei a esta conclusão.

 

Dom Frei Francisco de São Luiz Saraiva (nascido Francisco Manuel Justiniano Saraiva, 1766-1845), autor do livro Memória Histórica sobre as obras do Real Mosteiro de Santa Maria da Victória, chamado vulgarmente da Batalha, já mencionado anteriormente, diz-nos que em 1528 já Boytac era falecido.

 

              

 

Ora, o denominado Cardeal Saraiva, tinha com certeza conhecimento da igreja de Santa-Maria-a-Velha, precisamente onde se encontrava o túmulo de Boytac e, por conseguinte, leu o seu epitáfio. Isto é, 6 de Dezembro... faleceu antes de 1528, então só pode ser 6 de Dezembro de 1527. Vejamos então o que ele nos diz nesse seu livro, cap. I « Da origem e princípio da fundação do Convento (Souz. H. de S.D.P.I.L., VI. C. XII), pp. 7-8 :

 

« (...) se edificou huma pequena capella, de que ainda existem ruínas, não longe da entrada principal do mosteiro, a qual em muitos documentos do cartório, desde o anno de 1429 até ao dia 1494, e ainda depois, se denomina, ora a igreja de santa Maria, ora a igreja velha, ou a igreja de santa Maria, a velha: e sem dúvida servio, não só para nella celebrarem os religiosos o santo sacrificio da missa, e pregarem a palavra de Deos; mas também para d'ali se administrarem os sacramentos aos officiaes e pessoas empregadas n'aquellas obras. »

 

publicado por fulg às 01:56

Ao receber-me pessoalmente na secretaria do Mosteiro (segundo piso do claustro D. Afonso V), o Sr. Director Júlio Órfão chamou-me a atenção para a página 48 do «Appendice, Igreja de Santa Maria » do livro O Monumento da Batalha - Guia do Visitante, publicado em 1904 (segundo o historiador e etnógrafo Sr. José Travaços Santos, o seu autor seria Afonso Moreira Padrão) e cujo autor transcreveu na íntegra os epitáfios. Aqui é-nos dito que Boytac faleceu na década de 1570:

 

« S.ª de mestre Boitac, cavalleiro da casa D'El-Rei nosso Senhor e mestre das obras do reino. Faleceu a 6 de Dezembro de 157 'A pedra acha-se muito gasta, não podendo ler-se bem o 7 nem qualquer outra letra ou algarismo que se seguisse' »

 

Infelizmente, o que resta hoje da lápide perdeu a parte do epitáfio onde outrora se lia «de 157?». Ao menos, temos o testemunho do que ali se podia ler nos finais do séc. XIX e inícios do séc. XX.

 

Enfim, se Boytac faleceu em meados de 1570, então teria falecido centenário, uma vez que nasceu por volta de 1460.

 

De facto, se a sua primeira obra data de 1490-92 em Setúbal, no Convento de Jesus, Boytac já era considerado um Mestre-de-obras, sendo que Frei Jeronymo de Belém chega mesmo a designá-lo, na sua Chronica Serafica da Santa Provincia dos Algarves da regular observancia do nosso serafico padre S.Francisco em que se trata da sua origem, progressos e fundações de seus conventos (Officina de Ignacio Rodrigues), 2ª parte, livro 10º, 1º capítulo de 1753, p. 576, de « grande Architecto Mestre Boutaça », então tinha de ser um homem de cerca de trinta anos, daí se situar temporalmente a sua data de nascimento em meados de 1460.

 

Muitos chegaram até a confundir a data da morte de Boytac com a de sua esposa Isabel Henriques, afirmando que ele faleceu sexagenário em 1522:

 

« DIOGO BOITACA (BOUTACA, BOYTAC) - Arquitecto (falecido c. 1522)» (Páginas de História da Arte, 1. Artistas e Monumentos por Jorge Henriques Pais da Silva, Editora Estampa, Colecção Teoria da Arte, Lisboa, 1986, 2ª edição, « O Manuelino: Guião para filme-documentário - alguns artistas do Manuelino, p. 76).

 

Sem esquecer outros exemplos, tais como a do Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse Selecções, Selecções Reader's Digest, 1981, 2º Vol. « Nomes Próprios », p. 1084, onde se pode então ler que Boytac faleceu na Batalha em 1522.

 

Por sua vez, na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, no seu 4º Vol., p. 1009, lê-se :

 

« A data da morte de Boytac está infelizmente mutilada na sua lápide funerária, faltando os seus últimos algarismos, achando-se completa a da sua mulher. »

 

Como se pode verificar nos epitáfios das lápides funerárias do casal Boytac, isto está correcto.

 

Ora, como os dois últimos algarismos são ilegíveis, aventou-se que c.1528 era, pois, a data mais provável da sua morte, tal como foi anunciado pelo cronista Dom Frei Francisco de São Luiz (1766-1845), na sua Memória histórica sobre as obras do Real Mosteiro de Santa Maria da Victória, chamado vulgarmente da Batalha, typ. Academia Real das Sciencias, Lisboa, 1872.

 

Todavia, o historiador Francisco Marques Sousa Viterbo (1845-1910), no seu Dicionário histórico e documental dos arquitectos, engenheiros e constructores portugueses ou ao serviço de Portugal, vol 1, « 88 - Boytac (Diogo?) », p. 129, questiona-se sobre a veracidade desta data avançada por S. Luiz :

 

« S. Luiz, na sua Memória sobre a Batalha, relacionou Boutaca no catálogo dos mestres, cuja arte ou offício não se acha designado nos documentos, e diz que a sua actividade se manifesta ahi nos annos de 1509, 1512, 1514 e 1519, e que em 1528 já era fallecido. Não precisa, porém, sendo para sentir o seu laconismo, as circunstancias relativas a esta última data e a este último facto »

 

O pequeno livro azul de autoria de Frei Francisco de São Luiz, que consultámos na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian (cote RS 7248, Colecção Reis Santos, depósito) não faz qualquer alusão ao enterro, ao túmulo ou ao epitáfio da lápide funerária de Boytac, apenas nos diz que em 1528 já o arquitecto em questão era falecido. Para mim isto significa que Boytac faleceu nos finais de 1527.

 

« Mestre Butaca, ou Botaca, cavaleiro da caza de ElRei: doc. de 1509, 1512, 1514, 1519 - já fallecido em 1528 » (Memória histórica sobre as obras do real Mosteiro de Santa Maria da Victória, chamado vulgarmente da Batalha por Frei Francisco de S.Luiz, Impressa no T.X. das Memorias da Academia Real das Sciencias, typ. Academia Real das Sciencias, Lisboa, 1827, cap. II, « Do sítio do Mosteiro e dos Mestres que presidirão ás Obras (Sousa, cap. XII) - III Catálogo, Mestres, cuja Arte, ou officio se não acha designado nos documentos », p. 19).

 

No entanto, o mesmo autor faz alusão à igreja de Santa Maria-a-Velha, conhecida também por Igreja Velha, no largo adjacente às Capelas Imperfeitas do Mosteiro da Batalha, que o rei D. João I (1357-1433), Mestre de Avis, de cognome O de Boa Memória, fez erguer em 1386 aquando do arranque das obras do Mosteiro para celebrar missa em apoio aos operários do estaleiro, e a qual manteve as suas lápides funerárias até à destruição da nave na década de 1920, época em que as ditas lápides serviram então de lajedo em passeio público da vila.

 

Actualmente foram efectuadas algumas escavações às suas ruínas e hoje uma grande pedra assinala o local com a seguinte inscrição:

 

Aqui se situou a igreja de Santa Maria-a-Velha mandada construir por D. João I para assistência religiosa aos operários do Mosteiro.

Nesta primitiva igreja da Batalha foram sepultados alguns dos mestres e oficiais das obras do Mosteiro e outros moradores da vila.

 

img478

 

Muito curiosamente, se nos inícios do séc. XIX S.Luiz consultou realmente o epitáfio das lápides nas ruínas de Santa Maria-a-Velha (da qual tinha conhecimento), então Boytac faleceu na sexta-feira 6 de Dezembro de 1527, durante o reinado de D. João III (1502-1557), de cognome O Piedoso.

 

publicado por fulg às 00:16

13
Out 11

As pedra tumulares de Mestre Boytac estão depositadas numa sala dita sala das pedras, mas cuja localização me foi pedido de não revelar, sendo então responsável pela gestão do monumento o saudoso Sérgio Guimarães de Andrade, na época Conservador do Museu Nacional da Arte Antiga, e cujas imagens subtemos aqui à vossa apreciação.

 

Antes de observarmos as imagens, fazemos saber que o seu nome é aqui grafado MESTRE BOTAC ou BOITAC, muito embora ele assinasse como BOYTAC (mais adiante vamos também estudar a importância deste Y).

 

img011

 

« Sepultura de Mestre Boitac, cavaleiro da casa d'El-Rei, nosso senhor e Mestre das obras do reino. Faleceu a 6 de Dezembro (de 15...)»

 

 img013

 

 « Sepultura de Isabel Henriques, mulher de mestre Boitac, faleceu a 23 de Abril de 1522 »

 

Vejamos agora de seguida e pela primeira vez na História, as pedras tumulares de Mestre Boytac e da sua mulher Isabel Henriques, que eu (Walter Grosse) descobri no Mosteiro da Batalha.

 

            img472

 

As pedras tumulares no que diz respeito a Mestre Boytac :

 

            img468

  

    img471

 

As pedras tumulares no que diz respeito a Isabel Henriques, mulher de Mestre Boytac:

 

    img474

 

               Correcção img474 

 

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publicado por fulg às 22:51

 

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Nos finais do séc. XV, durante o reinado de D. João II (1455-1495), de cognome O Príncipe Perfeito, surgiu em Portugal um misterioso arquitecto, um Mestre-de-obras cuja identidade é ainda hoje motivo de grandes controvérsias. O nosso intuito com este blog é lançar alguma luz sobre esta personagem tão enigmática da nossa História.

 

Apelidado frequentemente de Boutaca, Boitaca ou Boytac, diz-se que o seu primeiro nome era Diogo...

 

« Damião de Góis dá-lhe o nome de Diogo, quando nos fornece a relação dos indivíduos que foram no anno de 1515 à desastrada expedição de Mamora... Diogo butaca que hia por mestre da obra da fortaleza. (Chronica de D. Manuel, parte III, cap. LXXVI) » (Dicionário histórico e documental dos arquitectos, engenheiros e constructores portugueses, vol 1, reprodução em fac-símile do exemplar com data de 1899 da Biblioteca da INCM, prefácio de Pedro Dias, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1988, « 88 - Boytac (Diogo?), p. 120).

 

Para Mário de Sampaio Ribeiro, autor Do Sítio do Restelo e das suas Igrejas de Santa Maria de Belém, Lisboa, 1949, p. 345, o Mestre Boytac foi talvez o último iniciado das confrarias de pedreiros livres que viveu entre nós !

 

Sabemos que ele era uma figura altiva, artista soberbo de múltiplas aptidões e que no convívio real captava as atenções do rei, como bem demonstra a sua sentença contra o barão de Alvito e, após ter sido repreendido por desrespeitar um senhor do Reino, dirigiu-se ao rei D.Manuel com as seguintes palavras: «Vossa Alteza pode fazer quantos barões quiser e não pode fazer um mestre Butaca porque isso só Deus o faz»!  

 

A sua vida continua ainda hoje envolta em grande mistério, pois desconhecem-se as suas origens. Sabe-se apenas que faleceu na vila da Batalha. Dos nossos contactos com a Câmara Municipal da Batalha, a quem queremos aqui agradecer todo o apoio que nos deu para o início das nossas pesquisas, o etnógrafo local, o Sr. José Travaços Santos, elucidou-nos do seguinte :

 

« Quanto à existência dos túmulos de Boytac e da sua esposa Isabel Henriques na igreja de Santa Maria-a-Velha, efectivamente eles existiram nesse local, tal como os túmulos de vários arquitectos responsáveis pela edificação do Mosteiro. Após a demolição da igreja, as ossadas existentes foram depositadas em valas comuns e as pedras tumulares (tampas) de calcário encontram-se no Mosteiro de Santa Maria da Vitória. »

 

Ainda noutra mensagem que data de 23 de Janeiro de 2006, o Sr. José Travaços Santos esclareceu-nos do seguinte :

 

« Este mestre, que foi um dos primeiros e principais escultores do Manuelino, embora sendo mestre das obras do Reino e viajando constantemente pelo nosso País e pelo norte de África (onde dirigiu obras nas praças portuguesas), tinha a sua residência na Batalha, aqui casando com uma filha do mestre Mateus Fernandes, aqui lhe nascendo possivelmente filhos e aqui falecendo em 1528, sendo sepultado na demolida Igreja de Santa Maria-a Velha. Quanto ao seu nome há a certeza, porque deixou documentos assinados, que era Boytac. O nome próprio Diogo é duvidoso. Nada o confirma. »

 

Mais tarde, foi-me concedida a autorização de visitar e fotografar as lápides funerárias de Mestre Boytac e da sua esposa Isabel Henriques, graças à amabilidade do Sr. Júlio Ribeiro Órfão, então Director do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha.

 

Foi então a partir daqui que começou a nossa grande aventura à descoberta do misterioso BOYTAC.  

 

publicado por fulg às 22:20

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